segunda-feira, 7 de junho de 2010

Coroado

Sob a proteção irremediável das favelas vizinhas o Coroado reina. Soberano, ele comemora seus trinta e seis anos de existência na santa paz do Senhor – Jesus Cristo em reforma.
No Coroado não tem guerra, não tem droga, não tem arma e não tem vagabundo! O Coroado é a área de lazer da zona de conflito de algumas – das muitas – favelas da saudosa zona sul carioca.
É de nordestino que o Coroado respira, já que 80% da população é de Cearense, Baiano e Paraíba. Eles chegam em toneladas todo ano no Rio e correm direto pras favelas onde certamente tem um parente esperando por eles, em comum todos eles tem um sonho: fazer a vida.

Se tem uma coisa que precisamos fazer a cada momento, essa coisa é a vida, e pra esse povo de pescoço pequeno o que não falta é obstinação.





Amaral é um Cearense aplicado quando o assunto é fazer a vida, tem 37 anos – 8 deles vividos no Coroado. Bagagem de vida: três filhos homens, dois enteados, um filho adotivo, salário pequeno, casa pequena, oportunidades pequenas e tamanho grande para um nordestino. O coração é grande. O espírito é grande e a vida é bela, e na busca dela é que ele veio.

No nordeste nunca foi fácil, estamos cansados de ver isso retratado em filmes brasileiros, o nordeste é uma tragédia grega a cada olhar, não faltam dramas a serem contados e por isso todo mês temos um filme novo falando da mesma coisa com atores diferentes.

O ator da vez é Amaral, o grego, o Hércules que se tornou Coroado.
Veio de Crateús – Ceará ainda novo, com 18 anos, a primeira coisa que fez quando chegou foi a mais fácil de todas: filhos. Os problemas estavam só começando e a busca por um trabalho era incessante, fez um curso para segurança e logo em seguida conseguiu seu primeiro emprego. De lá pra cá já exerceu várias profissões sem nunca sair da mesma base salarial.
No Coroado ele conhece todo mundo e é bem quisto por ser a simpatia em pessoa, sempre com um sorriso pra quem quer que seja – bom dia, boa tarde e boa noite – não tem tempo ruim pra subir o escadão com 283 degraus que desemboca no Coroado.
É feliz por ter sua família num lugar que todos pensamos ser perigoso, mas que é mais tranqüilo do que qualquer outro bairro de classe média alta. E é pela tranqüilidade que cada espaço dessa favela é super valorizado, uma casa está por volta de 60 mil reais – nada mal pra quem quer morar numa favela.





Na minha infância eu vivia na rua, fui criado solto numa cidade pequena, não tinha perigo, com exceção, é claro, do bicho do saco que minha mãe me alertava se eu ficasse na rua até de noite.
Observo as crianças que vivem numa cidade grande e noto que para assustá-las os pais não falam sobre o bicho do saco da minha infância e sim de um bicho real. Vários bichos. E elas, as crianças, têm que ficar brincando de um pique – esconde eterno dentro de seus apartamentos.
No Coroado eu senti um gostinho de cidade pequena de novo e fui jogar futebol com os filhos e enteados do Amaral, meus irmãos. Não de sangue, pois sou o filho adotivo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Profissão Faxina

Capítulo 1: Fuga pela porta da frente

Bastou costurar em seu corpo um vestido branco de noiva para que o pantera negra deixasse sua leoa mais arisca fugir pela porta da frente. Sua juba estava resplandecente, foi no auge de sua beleza que Izolete encontrou a solução dos seus problemas na pele de um gaúcho – esse macho, muito macho – bonito e louro sem esquecer dos olhos azuis. Quatorze anos mais velho que ela. A história é simples: conheceram-se. Apaixonaram-se. Casaram-se. Tudo concedido pelo rígido pantera, o pai.

A festa foi a dos sonhos de qualquer noiva: festa no melhor hotel da cidade com lua-de-mel em Gramado, terra natal do noivo. Estava vivendo um conto de fadas, a menina que tinha passado fome na infância, que tomava mamadeira de farinha de mandioca com açúcar – por falta de leite – estava entrando na high society com o salto, as unhas e o veneno.

Capítulo 2: Dias de glória

O amor estava sendo consumadosugado, existia uma visceralidade naquele desejo carnal que cada olhar dela era um orgasmo dele, não precisavam de palavras, se comunicavam por gestos, sussurros, suor e saliva.

Era uma sorte no amor, mas uma sorte tão grande que foi passada pro mundo dos negócios sem os pombinhos notarem. Com uma certa experiência em gastronomia abriram um restaurante de frente para o mar que em poucas semanas era o mais movimentado da cidade, o dinheiro entrava assim como o amor aumentava. Ele fazia todas as vontades de sua amada e essa aproveitava como uma menina pobre que é lançada numa loja de brinquedos com um cartão de crédito sem limite. E como uma menina pobre com um cartão de crédito sem limite o primeiro desejo foi abrir uma loja de brinquedos! Ele concedeu.

As coisas estavam indo pra frente, tudo certo. Restaurante de frutos-do-mar lotado, loja de brinquedos que cresceu e virou também papelaria... Etc. e tal. Era de causar uma inveja sem tamanho, e causava. O olho gordo em cima do casal era tão grande que o santo não suportou.

Num belo dia o amado inventa de montar uma fábrica de bolachas, foi um mega investimento que não deu certo.

Capítulo 3: O salto partiu, as unhas quebraram, mas o veneno, meu filho, só aumentou.

Chegava para trabalhar às seis da tarde, e passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo-os com quatro vassouradas, recolhendo os preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor. Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue, panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo.

O trabalho era duro e mal pago, mas ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das camas que iam se depositando em seu sangue com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que lhe fizesse o favor sem luxos nem perguntas.

Essa não é a Izolete, é uma empregada doméstica do García Márquez, mas as histórias são parecidas. Depois de todas idas e vindas e sonhos, Izolete tornou-se faxineira: profissão matadora, que consome sua vida há cinco anos. Reconhece seu destino com a garra que tem, de leoa arisca que sonhava em ser aeromoça.

Da profissão não tira nada de bom, é uma necessidade de botar comida em casa – carne fresca para seus quatro filhotes. Refletindo hoje, percebe que teve chances e que as desperdiçou, mas não olha pro passado com lágrimas nos olhos, na retina castanho-escura em vez de lágrimas existe veneno. O veneno da vida que nos dá razão de não sermos reparados e sim reparadores. A Izolete é reparadora e o que à mantém de pé nessa profissão é esse líquido sereno que transborda no seu corpo.


Izolete hoje


Edileuza

Idade: 38 anos

Filhos: 4

Profissão dos sonhos: professora

Breve história: Teve o primeiro filho com quinze anos no Paraná, onde trabalhava na lavoura. Veio pra Santa Catarina há três anos cuidar dos sogros, que agora estão internados num asilo, pois seu marido foi preso por ter que dirigir, sob pena de morte, um caminhão com toneladas de maconha. Trabalha como faxineira somente na temporada de verão, onde junta dinheiro para comida do ano inteiro. Uma coisa que sempre acontece quando dorme é sonhar que está dando aula.


Neuza

Idade: 43 anos

Filhos: 5

Profissão dos sonhos: chefe de cozinha

Breve história: Estudou até a quinta série quando criança e hoje tem sede por aprender, quer entrar no supletivo, se formar e abrir seu próprio negócio: um restaurante. Ama o que faz porque gosta de limpeza, mas sofre as dores da profissão no corpo e no bolso. Vive de aluguel e nenhum de seus filhos mora com ela, nem as menores, de quinze e dezesseis.




Simone

Idade: 29

Filhos: 3

Profissão dos sonhos: Detetive

Breve história: Com dezoito anos engravidou e teve que casar com o cara que só a maltratava. Engravidou pela segunda vez e quando foi pra maternidade ter seu filho, o marido (em apenas três dias) vendeu tudo que ela tinha, roubou cinco mil de sua conta e passou vários cheques em estabelecimentos na cidade.

Quando voltou pra casa e percebeu que tinha perdido tudo, pediu pra vizinha comprar veneno pra rato e se envenenou ao lado do filho com cinco dias. Foi socorrida oito horas depois de se envenenar e por sorte sobreviveu.

A vontade de ser detetive é pelo fato dessa profissão estar relacionada a alguém que ajuda os outros, como uma super-heroína.

Usa o trabalho como distração, pra não cair na depressão.


Geral Faxina.

Na vida,

alguma coisa tem que ficar limpa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ecstasybalabalada

Paula e Catherine

A Paula é cool. Parece a Annie. Annie Hall do Woody Allen. No colorido da roupa e na brancura da pele: uma argentina. Não por acaso ela mora na Argentina do Brasil, a Praia da Ferrugem.
É lá que começa minha aventura, mais precisamente na pousada da praia, onde mora Catherine, a melhor amiga da Paula.
A amizade começou na 6º série, numa brincadeira no começo do ano letivo, quando um joga um rolo de linha para o outro que tem que contar como foram suas férias. A Paula jogou para Catherine – e como toda grande história de amor começa de um acontecimento insignificante – eis que começa a delas.
Foi na volta da escola, no ônibus Garopaba x Ferrugem, que a amizade engrossou e tomou conta de suas jovens almas e é nessa viagem que é a vida de uma adolescente de 16 anos, repleta de altos e baixos, que eu embarco – ódio, paixões, os Martins, o Rodrigo Emanuel, blushs, baladas, chapinhas, cigarros, facebooks, álcool – a juventude. Eterna e efêmera.

M. O Uruguaio

M. tem 18 anos e não pode ser identificado. Silêncio. Só pra vocês – ele consome drogas ilícitas – Shhh – Todas elas. Ecstasy, a droga do amor, é sua preferida. Em segundo lugar nada como a velha e boa marijuana, que segundo seus amigos argentinos R. e P., está em falta na Ferrugem. Farinha (cocaína) tem de monte. É o que mais tem. Seu preço é quase o mesmo ao da maconha, pelo menos aqui, que a procura é grande e a quantidade pequena – 25 gramas na Argentina chegam a pagar 35 reais, aqui você não compra por menos de R$ 80,00.
M. veio com 900,00 reais para o Brasil depois do natal para passar a temporada toda, até o carnaval, depois passa um tempo no Nordeste do Brasil e em seguida parte para Bariloche onde passa o inverno trabalhando.
Dinheiro é o que ele menos tem, os R$ 900,00 que ele trouxe acabaram em uma semana, então teve que trabalhar. Trabalhou em vários restaurantes – foi despedido de todos. Hoje está à procura de emprego, gasta 10,00 reais por dia para poder se manter.
- Como alface e tomate no almoço. Para economizar. Dinheiro para drogas? Eu tenho amigos!

A Mãe do Lucas

- Tu não faz chapinha?
- Faço.
- Ah, mas ta super legal ao natural.
- Mesmo?
- Aham.
- Ah, então vou deixar.

Depois de várias vodkas com tang de laranja esse era o diálogo do Yuri com a mãe do Lucas. O cabelo dele parecia um livro aberto, segundo ele mesmo. A mãe do Lucas tava sendo muito querida ou talvez ela gostasse mesmo daquele cabelo, pela atitude que relembra os hippies de 68 e toda a transgressão. Aquele cabelo é a liberdade! A liberdade que o Yuri insistia em alisar com a chapinha.
Lucas, o filho, também tem cabelo grande, porém não faz chapinha. Ele é roqueiro! Jonnyesbaby é o nome da banda que ele tem com o João. Amigos na escola , bandas em comum, estilos parecidos... Vamos montar uma banda? Apagam-se as luzes. O show começa.
De início tocaram duas do Strokes – não me empolguei. A terceira foi um trecho de “Fluorescent adolescent” do Arctic Monkeys – menos ainda. Quando estavam indo para quarta e o meu saco tava enchendo, acertaram com tudo “Soldier of Love” do Pearl Jam. Gostei.
A quinta, sexta, sétima música eu não lembro. A vodka com tang de laranja! E eu me esqueço de tudo. Só lembro da tia falando:
- Eu embebedei o cara! Olha, não vai dizer que tava na mãe do Lucas.

Fio, Karina, Jus e Jo!

Descoladas e lindas. 20 anos. Argentinas.
P.S. Quatro caipiroskas, só pra começar.

Paula e Catherine 2

Ecstasy, bala e balada.
A mãe da Catherine chorou quando soube que sua filha com então 14 anos estava fumando. Foi um choque. A Catherine prometeu que ia parar. E parou? E chorou! Quando na festa da espuma a água estragou sua chapinha.
- Eu to sem maquiagem, sem franja, sem sutiã.
- Sem chinelo.
- É. Sem chinelo.
A Paula tem uma queda pelo sotaque argentino. Ela se apaixonou pelo Rodrigo Emanuel numa noite na Ferrugem, ficou com ele e obrigou o cara a fazer um Orkut. Ele fez e tem dois amigos, a Paula e outra, que não é a Catherine. Esse romance não foi além de um depoimento: “Hola linda, I missing you so much. Besos.” Uma coisa, eu diria, fugaz. Romance mesmo ela tem com o álcool – sem transformá-la numa bêbada  – é um romancezinho bobo e duradouro, daqueles que melhoram com o tempo. Mas é só álcool.
Maconha, coca, bala, crack – isso deixa pro M. consumir. As coisas ilícitas.
Antigamente, à uns dez anos atrás, era tudo liberado na Ferrugem. Os argentinos pelados no meio da rua. Todo mundo pelado na rua. Era uma terra sem dono, não tinha polícia, infra-estrutura. Hoje é diferente, falta maconha na Ferrugem! argentinos pelados também está em falta. Um dia desses o tio da Paula pegou um tomando banho num chuveiro da rua, uma raridade, ele correu pra cima do cara com uma vara de bambo, o gringo nu levou uma surra de vara.
A mãe do Lucas não gosta de argentinos – sujos, bagunceiros, escandalosos, viadinhos.
Drogas = Desvio de conduta. Ela desperta, ela transcende. Drogadrogadroga.
“A diminuição do uso de substâncias tóxicas que causam dependência se deve a manutenção da ilegalidade destes produtos.” O álcool e o cigarro causam mais mortes justamente porque são legais.

Legal então.

A mãe do Lucas 2

A tia é à favor da legalização da maconha, pois é...

Cool como a Paula.
Assexuadas como as argentinas.
Rock como o cabelo do Lucas e ao mesmo tempo pop como o cabelo alisado do Yuri.
É um pré-adolescente de sete anos que por curiosidade ou com a intenção de fazer uma figura importante, fuma um cigarro.
A droga é trash.
Mortal como M., o não-identificado.








Los hermanos

M. O Uruguaio


Paula e Catherine - que não quis aparecer


Lucas, Pearl Jam e o cabelo


Fim de tarde na Ferrugem


Karina

Cigarros e sorrisos

A Paula cansou de foto
Adios muchachos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Da perda à confusão

Quinta-feira. 17h02min
Tayná, o primeiro raio de sol para Edemar e toda sua ancestralidade, chega em minha casa faceira da vida. Tinha conhecido Tatiana, uma indiazinha de 2 anos. Foi paixão a primeira vista. Estava tão entusiasmada com a descoberta dessa vida que atiçou minha curiosidade, não só de conhecer Tatiana, mas toda sua família e a situação que se encontravam.


17h48min
Fomos até o acampamento. Chovia. Estava com medo.
Porém Tayná, mais corajosa que eu e movida pela esperança de reencontrar Tatiana, entrou no acampamento com tudo. Fomos recebidos por duas índias. Tayná logo perguntou se precisavam de algo e lá se foi uma lista completa: comida, roupa, panela, cobertores, travesseiros, louças, etc.etc.etc. e um carrinho de bebê. Esse último item para quem???
Como quem não quer nada, lá estava ela espiando. Sorridente. Linda mesmo. Tudo aquilo que Tayná tinha me dito.





18h00min
Saímos dali com a promessa de que no dia seguinte levaríamos algumas coisas da lista. Tenho uma amiga assistente social e fui logo ver se poderia nos ajudar. Ela ligou pra FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e sabem o que eles disseram? Que não podemos interferir no modo em que vivem – no meio do lixo – e que se achamos que eles atrapalham no turismo, temos que parar de fazer doações e deixá-los morrer de fome! Pois assim retornariam para suas cidades.


Sexta-feira. 07h30min
Pensei. Pensei. Pensei. Conversei com algumas pessoas e vi os dois lados. Que os índios trazem problemas para o turismo é evidente, todo o lixo que produzem e a forma em que as crianças vivem jogadas e sujas por aí não é legal para a cidade, agora, fechar os olhos pra essa realidade e enxotá-los de nossa cidade sem saber os motivos e toda a coisa que tem por trás da situação em que vivem atualmente é que não dá!

16h25min
As doações não foram generosas, mas tinha uma razoável quantidade de comida. Estava ansioso pelo sábado, pois na entrega dos alimentos queria ter uma conversa com os índios, queria investigar, queria respostas. E tive a perda. Vi a perda. Fiquei confuso. Vi nos olhos de Edemar a confusão.

Sábado. 17h40min
Encontrei-me com Tayná. Estávamos com tudo que conseguimos arrecadar em mãos. O frio na barriga era inevitável agora. Partimos.



17h49min
Quem nos recebeu novamente foram as índias. Simpáticas. Agradeceram pelas coisas que conseguimos. Perguntei se poderia fazer umas perguntas pra ela – encabulou na hora – disse que não saberia responder e que chamaria seu marido. Espero receoso.Sereno, chega Edemar. Aperto sua mão num gesto de “Sou branco, mas sou amigo”, pergunto se podemos conversar e na sua serenidade e desconfiança responde que sim. Convido-o a sentar na sua própria casa e ele pensando “Que cara folgado”, assente. Começo meu questionário.

- Como escolheram Garopaba? A iniciativa de vir pra cá partiu de quem?

Edemar – A organização quem faz é o cacique, ele é quem organiza os ônibus. Tem índio na Pinheira, na Guarda do Embaú, onde tem turismo a gente vai vender.

- Sentem falta dos costumes da cultura de vocês?

Edemar – Já estamos acostumados, não tem mais como ser igual a antes.

- Mas têm vontade de manter os costumes?

Edemar – Sim. Os rituais. Todos os anos também fazemos uma gincana pra escolher que tipo de festa vai ter naquele ano.

- E o dia do índio?

Edemar – Dia 19 é o dia do massacre, foi o dia em que o homem branco invadiu a cultura indígena.

(Putz. Toca meu celular. Desligo.)
Meio sem jeito, pergunto:

- Vocês têm celular?

Edemar – Sim.

- ( ! ) Aé? Hmm... Por acaso usam internet, tem e-mail?

Edemar – Sim.

- (!!!) Assistem televisão?

Edemar – Só na tribo, aqui não temos televisão.

- Ah, na tribo vocês tem... Assistem o que?

Edemar – Ah, novela jornal, filme, canal 4, o canal 7 às vezes é o dia inteiro de programa evangélico.

- Vocês assistem canal evangélico?!?

Edemar – Sim, nós somos evangélicos.

Nessa hora minha cara caiu. Eu ri, de nervoso. Era só o que faltava pra meu completo espanto. O índio não bastava aquilo tudo, era evangélico! Me contou que dentro da tribo tinha culto da Igreja Universal, Deus é Amor e Só o Senhor é Deus. Dentro da reserva indígena tem a evangelização e são os próprios índios que são pastores, o índio-pastor! Perguntei sobre o dizimo, e é claro que eles dão dinheiro a igreja. A Universal! Aquela! Me contaram que pastores foram a procura deles para apresentar Jesus.Perguntei sobre o cacique, ele disse que continua existindo, tem o cacique, o vice-cacique, os capitães, sargentos (para nós a polícia) e os conselheiros. Além é claro da nova categoria, o índio-pastor.

Estava confuso com toda essa informação, toda essa mistura de crenças, de valores. Eles perderam a cultura, a liberdade, a identidade.A partir daí comecei a entender o índio. Edemar, 36 anos, 4 filhos. Vi naqueles olhos uma criança. Uma criança que se perdeu dos pais e chora por dentro, não sabe pra onde ir.

00h08min
Em pleno sábado à noite estou pensando em Tatiana. O que será da pequena indiazinha?

1. Vai estudar e fazer uma faculdade.
2. Vai lutar pela manutenção da sua cultura.
3. Vai virar uma pastora evangélica da igreja universal.
4. Todas alternativas anteriores.



Não consigo responder.

Naquela tarde no final da entrevista, perguntei se poderia tirar umas fotos, ficaram envergonhados mas concordaram, enquanto registrava aquele mundo complexo, de perda e confusão, o índio pegou sua cyber-shot e sem eu notar tirou fotos minhas com Tayná.