segunda-feira, 15 de março de 2010

Profissão Faxina

Capítulo 1: Fuga pela porta da frente

Bastou costurar em seu corpo um vestido branco de noiva para que o pantera negra deixasse sua leoa mais arisca fugir pela porta da frente. Sua juba estava resplandecente, foi no auge de sua beleza que Izolete encontrou a solução dos seus problemas na pele de um gaúcho – esse macho, muito macho – bonito e louro sem esquecer dos olhos azuis. Quatorze anos mais velho que ela. A história é simples: conheceram-se. Apaixonaram-se. Casaram-se. Tudo concedido pelo rígido pantera, o pai.

A festa foi a dos sonhos de qualquer noiva: festa no melhor hotel da cidade com lua-de-mel em Gramado, terra natal do noivo. Estava vivendo um conto de fadas, a menina que tinha passado fome na infância, que tomava mamadeira de farinha de mandioca com açúcar – por falta de leite – estava entrando na high society com o salto, as unhas e o veneno.

Capítulo 2: Dias de glória

O amor estava sendo consumadosugado, existia uma visceralidade naquele desejo carnal que cada olhar dela era um orgasmo dele, não precisavam de palavras, se comunicavam por gestos, sussurros, suor e saliva.

Era uma sorte no amor, mas uma sorte tão grande que foi passada pro mundo dos negócios sem os pombinhos notarem. Com uma certa experiência em gastronomia abriram um restaurante de frente para o mar que em poucas semanas era o mais movimentado da cidade, o dinheiro entrava assim como o amor aumentava. Ele fazia todas as vontades de sua amada e essa aproveitava como uma menina pobre que é lançada numa loja de brinquedos com um cartão de crédito sem limite. E como uma menina pobre com um cartão de crédito sem limite o primeiro desejo foi abrir uma loja de brinquedos! Ele concedeu.

As coisas estavam indo pra frente, tudo certo. Restaurante de frutos-do-mar lotado, loja de brinquedos que cresceu e virou também papelaria... Etc. e tal. Era de causar uma inveja sem tamanho, e causava. O olho gordo em cima do casal era tão grande que o santo não suportou.

Num belo dia o amado inventa de montar uma fábrica de bolachas, foi um mega investimento que não deu certo.

Capítulo 3: O salto partiu, as unhas quebraram, mas o veneno, meu filho, só aumentou.

Chegava para trabalhar às seis da tarde, e passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo-os com quatro vassouradas, recolhendo os preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor. Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue, panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo.

O trabalho era duro e mal pago, mas ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das camas que iam se depositando em seu sangue com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que lhe fizesse o favor sem luxos nem perguntas.

Essa não é a Izolete, é uma empregada doméstica do García Márquez, mas as histórias são parecidas. Depois de todas idas e vindas e sonhos, Izolete tornou-se faxineira: profissão matadora, que consome sua vida há cinco anos. Reconhece seu destino com a garra que tem, de leoa arisca que sonhava em ser aeromoça.

Da profissão não tira nada de bom, é uma necessidade de botar comida em casa – carne fresca para seus quatro filhotes. Refletindo hoje, percebe que teve chances e que as desperdiçou, mas não olha pro passado com lágrimas nos olhos, na retina castanho-escura em vez de lágrimas existe veneno. O veneno da vida que nos dá razão de não sermos reparados e sim reparadores. A Izolete é reparadora e o que à mantém de pé nessa profissão é esse líquido sereno que transborda no seu corpo.


Izolete hoje


Edileuza

Idade: 38 anos

Filhos: 4

Profissão dos sonhos: professora

Breve história: Teve o primeiro filho com quinze anos no Paraná, onde trabalhava na lavoura. Veio pra Santa Catarina há três anos cuidar dos sogros, que agora estão internados num asilo, pois seu marido foi preso por ter que dirigir, sob pena de morte, um caminhão com toneladas de maconha. Trabalha como faxineira somente na temporada de verão, onde junta dinheiro para comida do ano inteiro. Uma coisa que sempre acontece quando dorme é sonhar que está dando aula.


Neuza

Idade: 43 anos

Filhos: 5

Profissão dos sonhos: chefe de cozinha

Breve história: Estudou até a quinta série quando criança e hoje tem sede por aprender, quer entrar no supletivo, se formar e abrir seu próprio negócio: um restaurante. Ama o que faz porque gosta de limpeza, mas sofre as dores da profissão no corpo e no bolso. Vive de aluguel e nenhum de seus filhos mora com ela, nem as menores, de quinze e dezesseis.




Simone

Idade: 29

Filhos: 3

Profissão dos sonhos: Detetive

Breve história: Com dezoito anos engravidou e teve que casar com o cara que só a maltratava. Engravidou pela segunda vez e quando foi pra maternidade ter seu filho, o marido (em apenas três dias) vendeu tudo que ela tinha, roubou cinco mil de sua conta e passou vários cheques em estabelecimentos na cidade.

Quando voltou pra casa e percebeu que tinha perdido tudo, pediu pra vizinha comprar veneno pra rato e se envenenou ao lado do filho com cinco dias. Foi socorrida oito horas depois de se envenenar e por sorte sobreviveu.

A vontade de ser detetive é pelo fato dessa profissão estar relacionada a alguém que ajuda os outros, como uma super-heroína.

Usa o trabalho como distração, pra não cair na depressão.


Geral Faxina.

Na vida,

alguma coisa tem que ficar limpa.